Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas
Expo and Conference 2004, realizada no período
de 4 a 7 de outubro de 2004, no Rio de Janeiro. Este
Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação
pela Comissão Técnica do Evento, seguindo as informações
contidas na sinopse submetida pelo(s) autor(es). O
conteúdo do Trabalho Técnico, como apresentado, não
foi revisado pelo IBP. Os organizadores não irão traduzir
ou corrigir os textos recebidos. O material conforme,
apresentado, não necessariamente reflete as opiniões
do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, Sócios e
Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s)
autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado
nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference
2004.
Resumo
Este artigo resgata os principais fatos históricos
que conduziram o desenvolvimento industrial brasileiro e
a consolidação da matriz energética nacional. Analisa-se
particularmente o período entre 1850 até 1970, explicando
como o petróleo transformou-se no energético mais importante
na realidade brasileira. Na seqüência, o trabalho procura
extrair, da retrospectiva histórica, elementos essenciais
que deveriam estar presentes ao definir-se novas estratégias
para a penetração do gás natural na matriz energética do
Brasil nos dias de hoje. Analisa-se, criticamente, a coerência
e eficácia das principais políticas públicas implementadas
ao longo dos diferentes períodos históricos. Destaca-se a
importância dessa interpretação para a reflexão de políticas
mais convergentes para o gás natural, o qual deve ser encarado
não somente como uma fonte alternativa de energia, mas também
como elo importante para um processo de modernização industrial,
avanços tecnológicos e construção de um sistema produtivo
mais competitivo.
Abstract
This paper remembers the mainly historical facts that
conduct the industrial development in Brazil and the consolidation
of national energetic matrix. It was analyzed particularly
the gap between 1850 and 1970, explaining how petroleum became
into the most important energetic considering the Brazilian
reality. At the sequence, the paper look to extract, from
historical retrospective, essential elements that should
be present when new strategies will be defined to increase
the natural gas in the Brazil's energetic matrix nowadays.
It was analyzed, critically, the sense and efficiency of
the main public politics implemented between different historical
periods. It was emphasized the importance of these interpretations
to the reflection of politics more closed with natural gas,
whose must be faced not only like a alternative of energy,
but also like important link to a industrial modernization
process, technological development and construction of a
production system more competitive.
1. Introdução
O desenvolvimento do ser humano está intrinsecamente
ligado aos tipos de energia que ele teve acesso. Como comentado
por Fernandes (1999), o domínio sobre o fogo foi o primeiro
grande passo para a humanidade. Na época o combustível existente
era somente a lenha. Mais tarde começou o uso do carvão vegetal,
um combustível mais compacto se comparado com a lenha.
Com estes energéticos, que até hoje são utilizados,
o Homem deu início à metalurgia, industria básica para o
desenvolvimento da agricultura, todo tipo de artesanato,
armamentos, construção civil, transporte, etc.
O primeiro metal a ser trabalhado foi o bronze,
mistura de cobre com estanho. Depois veio o ferro, mas o
que viabilizou a metalurgia deste foi o uso do carvão mineral.
Aliás, o carvão mineral foi o combustível que impulsionou
a revolução industrial. Foi com ele que as máquinas a vapor
funcionaram e, através delas, o Homem conseguiu produzir
em grandes quantidades produtos manufaturados, como tecidos,
ferramentas, outras máquinas, etc. Foi também através das
máquinas a vapor que o Homem reduziu o tempo de deslocamento
entre cidades e nações, através dos trens e navios. É importante
notar que a Inglaterra, berço da revolução industrial, tinha
muito carvão mineral e minério de ferro.
Com o carvão mineral foi possível produzir
um gás, conhecido como gás manufaturado, através do craqueamento
deste. Este gás, rico em hidrogênio, permitiu as primeiras
instalações de iluminação pública e depois o seu uso nas
residências em fogões e aquecedores de água. Este tipo de
utilização só foi possível com um gás, que era uma extensão
do uso do carvão.
Entretanto, segundo Martin (1966),o gás manufaturado
foi deslocado completamente da iluminação pública com a descoberta
da energia elétrica no século XVIII. Além de ocupar o espaço
do gás na iluminação pública, a energia elétrica passou a
ocupar também espaço do carvão em outros processos industriais.
A energia elétrica é mais nobre do que o carvão, pois sua
conversão em outra forma de energia é conseguida de forma
muito eficiente.
Já no final do século XIX outro energético
surge para mudar o mundo: o petróleo com o uso de seus derivados.
A infinidade de variações de hidrocarbonetos, permitindo
diversos tipos de combustíveis gasosos e líquidos, além de
outros que permitiram a indústria do plástico. Rapidamente
surge a indústria automobilística, que anda em rodovias,
feitas com asfalto, sub-produto da destilação fracionada
do petróleo.
Século XX, início do uso em escala do gás
natural. Seu início foi nos EUA, mas com as exportações da
Rússia, com a maior reserva do planeta, o gás natural tomou
espaço do carvão nas termoelétricas e do gás manufaturado
fornecido para as residências na utilização em fogões, aquecedores
e calefação.
Hoje o gás natural se tornou mundialmente
o energético mais utilizado em termoelétricas e é o energético
que mais cresce em utilização.
Outro combustível do século XX é o nuclear,
inicialmente fonte de energia para as bombas atômicas, teve
sua utilização como combustível em usinas termonucleares.
Muitos países utilizaram esta forma de energia, como os EUA,
França e Alemanha. Hoje, seu futuro está sendo repensado.
Esta sinopse, do descobrimento e utilização
dos energéticos de nosso globo, traz os elementos iniciais
para o trabalho que se segue. Estaremos trazendo este cenário
mundial descrito para nosso país, somando suas particularidades,
potenciais e influência na indústria nacional.
2. Histórico da Matriz Energética Brasileira
Desde a descoberta, o Brasil utiliza a lenha
como energético. O ciclo da cana de açúcar se desenvolveu
todo ele sustentado pela lenha. O caldo de cana era aquecido
em tachos de cobre, utilizando lenha.
O ciclo do ouro, que veio em seguida, também
foi calcado no uso da lenha. O ouro em pó era derretido em
fornos a lenha/carvão vegetal, assistidos com foles, para
se obter as temperaturas necessárias.
O ciclo do café, foi o primeiro que trouxe
o uso do carvão mineral, não porque a torrefação necessitasse.Mas
o dinheiro proporcionado pelo café, aliado a presença de
imigrantes que trouxeram uma massa crítica de conhecimento,
aliado ao mercado brasileiro que demandava cada vez mais
produtos utilizados na Europa, desencadeou os primeiros passos
da industrialização do Brasil, particularmente na cidade
de São Paulo. O carvão, além da energia mecânica gerado pela
rodas d'água, foi o grande responsável O carvão passou a
substituir também a lenha nas locomotivas a vapor. Foi o
responsável pelo início da indústria de gás manufaturado
do Rio de Janeiro e São Paulo.
Descrito por Martin (1966), este carvão era
importado da Inglaterra principalmente e dos EUA. A produção
nacional de carvão começa apenas em 1912.
Esta dependência do carvão importado entra
em crise com a primeira guerra mundial entre 1914 e 1918
e continua nos anos que se seguiram devido à reconstrução
da Europa. É importante notar que a produção industrial mundial
pode ser correlacionada nesta época com o consumo deste energético.
Em paralelo, o desenvolvimento proporcionado
pelo café trouxe investidores externos e internos para a
geração de energia elétrica. Entre 1901 e 1930 houve um aumento
de 15,6% da capacidade instalada
A importação de petróleo e derivados era
desprezível até o fim da primeira guerra mundial. As importações
triplicaram logo após e se mantiveram assim até 1923. A partir
de 1924, as importações começam a crescer consistentemente,
salvo alguns anos de queda. Este crescimento coincide com
o crescimento do uso de automóveis e caminhões.
Em 1929, com a quebra da bolsa de New York,
nova crise se instalou. No Brasil a repercussão foi imediata,
pois a base de sustentação da política "café com leite" era
o café. Com a instalação do governo de Getúlio Vargas em
1930 começa uma fase desenvolvimentista que permanece até 1980,
conforme Santos (2004).
Esta fase se caracterizou por um governo
forte, centralizador, intervencionista, nacionalista e populista.
Caracterizou-se como sendo a fase onde o Brasil obteve o
maior crescimento em sua economia. Crescimento este calcado
na industrialização, na urbanização, na expansão das rodovias,
das telecomunicações, da indústria de base.
O Código de Águas criado em 1934 deu o caráter
centralizador do governo, dando à União a posse de todo o
recurso hídrico nacional. O Código aboliu a Cláusula Ouro
dos antigos contratos de concessão de eletricidade. A partir
de 1941 passou a vigorar uma nova regulamentação econômica
para o setor, através da qual a tarifa máxima passava a ser
determinada pelo "custo do serviço". De acordo com ELETROBRAS
(2004), o capital seria remunerado em média a 10% ao ano.
Porém, estabeleceu-se o princípio do custo histórico do
serviço, isto é, os custos deveriam ser calculados em valores
nominais passados, sem cláusulas de correção inflacionária
ou cambial.
Em 1953, devido a uma estação de seca grave, o país
foi obrigado a adotar um racionamento de eletricidade, em
uma época conturbada politicamente, que culminou com o suicídio
de Vargas em 1954. Segundo Bermann (1991), o ano de 1955 é considerado
um marco no Brasil da intervenção direta do Estado na geração
de eletricidade, com a entrada em operação da primeira máquina
da usina hidrelétrica de Paulo Afonso.
As relações entre empresas privadas e estatais já ocorriam
desde o final do século 19, sempre pautada por controvérsias,
sendo as mais fortes: a natureza da atividade de prestação
de serviços públicos de geração, transmissão e distribuição
de energia elétrica; a presença de empresas estrangeiras
e as formas de remuneração do capital através das tarifas.
No início do século 20, aproveitamentos hidrelétricos
de vários portes e locais foram passados para o controle
de duas empresas: AMFOP (pela sua subsidiária EBASCO) e a
LIGHT, que foram estatizadas em 1964 e 1979, respectivamente,
em condições vantajosas para estas empresas.
A partir dos anos 40 várias empresas estatais foram
criadas, sendo duas na década de 40, nove na de 50, dez nos
anos 60 (sendo que em 1966 a criação da CESP absorveu várias
empresas estatais), duas nos anos 70, sendo uma delas, a
ITAIPÚ, binacional (Brasil/Paraguai), com 96% da energia
destinado ao Brasil.
Nos anos 50, três fatores marcaram a inserção do Estado
no setor elétrico: a criação da ELETROBRÁS, a instituição
do "Plano Nacional de Eletrificação" e a criação do "Fundo
Federal de Eletrificação".
Estes dois últimos parágrafos mostram o vigor e a amplitude
com que a estatização ocorreu no setor elétrico Brasileiro.
Um ponto comum que caracteriza principalmente concessionárias
que tinham atividade de distribuição, geração e transmissão
de energia elétrica é que cada empresa criada correspondia
um determinado aproveitamento hidrelétrico, cujas obras eram
de responsabilidade específica da concessionária.
Outro ponto comum é que estas empresas estatais de caráter
estadual foram criadas precedidas pela institucionalização
de uma taxa de eletrificação, para capitalizar e viabilizar
o programa de eletrificação nos estados. Esta taxa, junto
com os recursos provenientes do IUEE - Imposto Único de Energia
Elétrica (institucionalização do "Fundo de Eletrificação"),
federal, concedido mediante apresentação do "plano de eletrificação" do
estado; consistia uma forma vigorosa de arrecadação de recursos
para as concessionárias. Entre 1954 e 1961, o agente de mobilização
desses recursos foi o BNDES. Durante esse período o setor
elétrico representou de 40 a 60% dos investimentos totais
do Banco. A partir de 1962 a Eletrobrás passou a ser o principal
destino desses recursos, transformando-se na grande instituição
financeira do setor. O acesso a tais fontes de financiamento
baratas permitiu a estrondosa expansão do setor, através
de empresas estatais.
A apresentação do "plano de eletrificação" enfatiza
a importância do papel das estatais no planejamento dos aproveitamentos
energéticos para fins elétricos, em substituição ao planejamento
de empresas privadas concorrentes, que seriam incapazes de "racionalizar
e otimizar os aproveitamentos", principalmente os da mesma
bacia hidrográfica.
Em paralelo, foram mantidas diversas empresas privadas
possuidoras de usinas de pequeno porte, dedicadas à distribuição
ao cliente final. Foram concedidas a grupos industriais as
gerações para próprio consumo.
A ELETROBRÁS controlava um "holding" de seis empresas
e tinha participação nas outras estaduais e privadas chamadas
de coligadas.
Desta forma, em termos de capacidade instalada (data
do levantamento 31/03/1990):
· Empresas
Controladas 23.237 MW (43,9%)
· Empresas
Coligadas 16.456 MW (30,3%)
· Itaipu 10.500
MW (19,4%)
· Auto
produção + privadas 3.487 MW (6,4%)
TOTAL 54.237
MW (100,0%)
Pelo fato de muito se ter investido na construção
do parque nacional de hidrelétricas, o governo brasileiro
fomentou o uso da energia elétrica, para amortizar os investimentos
feitos. Isto direcionou o sistema produtivo a utilizar equipamentos
de geração de calor e vapor elétricos.
No petróleo, não foi diferente. Em 1934
o governo criou o Código de Minas, situação que perdurou
até 1938 com a Lei nº 395 que criou o Conselho Nacional do
Petróleo (CNP). Esta lei decretava que todas as atividades
petroleiras eram de utilidade pública, as quais deveriam
ser regulamentadas pelo CNP. O Estado, através do CNP, controlaria
as atividades de refino, prospecção e exploração das jazidas
de petróleo.
Com a segunda guerra mundial a rigidez nacionalista
em relação ao petróleo foi relaxada, de acordo com Santos
(2004). As descobertas na Bahia atraíram o interesse de empresas
estrangeiras. Contudo, com o fim da guerra, o petróleo assumiu
um papel ainda mais estratégico na economia global. Surgiu
uma nova onda nacionalista, que propiciou a criação da Petrobrás
em 1954, por Getúlio Vargas, herdando todo os ativos produtivos
do CNP, principalmente 232 poços de produção e 361 de exploração.
Em menos de dez anos, a Petrobrás instalou uma capacidade
de refino equivalente ao consumo de produtos petroleiros
do país. O Brasil livrou-se da dependência de produtos derivados
e passou a importar óleo bruto. A produção nacional de petróleo
aumentou muito e representou 1/3 do consumo total do país
em 1960.
Foi fundamental para a consolidação da Petrobrás
a modificação ocorrida no sistema de financiamento do setor
de petróleo. Quando a empresa foi criada, foram disponibilizadas
quatro fontes de recursos fiscais: um imposto sobre automóveis
importados; uma contribuição anual de proprietários de automóveis,
avião ou barco (onde se entregava um certificado que poderia
ser trocado posteriormente por ações preferenciais da empresa);
uma contribuição especial paga por todas as demais empresas
de petróleo operando no mercado nacional; e finalmente uma
fração de um novo Imposto Único sobre os Combustíveis (sendo
que a outra fração desse imposto seguia para um fundo que
financiava investimentos na área de transporte, na ampliação
da infra-estrutura que permitia o uso de veículos e o consumo
de combustíveis). Apesar desta fonte de recurso ter sido
importante no início da Petrobrás, não eram suficientes para
que ela realizasse seus inúmeros investimentos. Muito mais
importantes foram os recursos próprios da empresa que, em
três anos, passaram a contribuir com parcelas de 50, 70 e
90% do financiamento total.
Na indústria, a era Vargas trouxe a siderurgia
(CSN) na negociação com os EUA e a Vale do Rio Doce na exploração
do minério.
Nos anos 50 e 60, devido aos investimentos
estatais, o setor energético também se industrializou. As áreas
de petróleo, hidroeletricidade e carvão adquiriram dimensões
de indústria, somando os esforços do governo na construção
de indústrias de base e infra-estrutura. A era desenvolvimentista
prosseguiu com Jucelino e seu plano de metas, desenvolvendo
a indústria nacional e reduzindo a dependência brasileira
da exportação de commodities agrícolas e minerais.
A instabilidade da moeda gerado pelos excessivos
gastos governamentais, principalmente com a construção de
Brasília, provocaram um aumento da inflação. Juscelino rompeu
com o FMI, que exigia austeridade fiscal. Esta retomada
só se deu em 1964, com o governo militar arrochando os salários
e gastos públicos e aumentando a participação dos tributos
no PIB de 16,3% para 22,4% entre 1964 e 1967, reduzindo com
isso uma inflação de 87%aa para 24%aa no mesmo período. O
crescimento econômico caiu para taxas de 3,6% neste período,
mas rapidamente cresceram na seqüência a taxas de muito altas.
Entre 1968 e 1973 o PIB cresceu em média 11,5%aa, enquanto
a inflação foi reduzida de 25,4% para 15,5%. O crescimento
foi maior nas indústrias de bens de consumo duráveis, de
equipamentos de transporte e em indústrias de base como o
aço, cimento, e a geração de eletricidade. Além disso, foram
criados instrumentos de financiamento da casa própria, cujo
efeito foi dar um grande impulso na construção civil.
O fator responsável pela grande penetração
do petróleo no mercado nacional e mundial era o preço. Um
grande impacto se deu na economia nacional e mundial quando
a OPEP aumentou significativamente o preço em 1973. O mundo
reagiu de diferentes formas. O Japão, por exemplo aproveitou
a importação do petróleo para alavancar suas exportações,
negociando com seu dinheiro. No Brasil, os militares que
estavam no poder desencadearam os seguintes ações e programas:
· A
prospecção e extração de petróleo em águas profundas;
· A
intensificação da construção de hidrelétricas para reduzir
a dependência do petróleo na indústria;
· A
associação com a Alemanha de repasse de tecnologia nuclear,
resultando na construção de Angra 1 e Angra 2 e compra dos
principais itens de Angra 3;
· O
Pro-álcool, maior programa mundial de sucesso em renováveis.
Estes esforços foram possíveis através do
endividamento do governo, em financiamentos a juros baixos
de dinheiro oriundo do próprio petróleo. Outro choque se
deu em 1979, houve um aumento dos juros das dívidas em dólar
e a economia brasileira entrou em uma espiral inflacionária,
onde somente conseguiu sair com o Plano Real, iniciado no
governo de Itamar Franco.
No governo de Fernando Henrique, com forte
tendência neoliberal, se deu a privatização de várias estatais,
principalmente no Estado de São Paulo. Toda a distribuição
de energia elétrica e gás canalizado foi privatizada.
De qualquer forma, a privatização se deu
sem haver um marco regulatório bem definido e visou o maior
retorno para o caixa do governo. A falta de regras claras
e de definição das responsabilidades dos atores ocasionou
a crise de energia elétrica de 2001. Houve uma queda de cerca
de 20% no crescimento esperado da economia, em uma época
onde se aguardava a retomada de um crescimento sustentável. Situação
vivida até hoje.
Porém é importante ressaltar que antes da
privatização das distribuidoras de gás canalizado, uma decisão
governamental, processada pela Petrobrás, criou o gasoduto
Brasil-Bolívia, fato que evidencia a liderança do Estado
na definição de um panorama novo para a matriz energética
nacional.
3. Matriz Energética, a Situação Atual Brasileira
O primeiro detalhe importante a ser observado,
a título de esclarecimento, foi à mudança ocorrida no cálculo
da matriz energética em 2003. Antes, a parcela da energia
elétrica era calculada considerando que toda a produção era
devido a termoelétricas com eficiência termodinâmica de 32%
e assim era considerado o consumo de combustível fóssil neste
contexto. Isto produzia uma distorção do valor da energia
elétrica, de forma que a matriz era dividida basicamente
em 1/3 energia elétrica, 1/3 derivados de petróleo e 1/3
outros energéticos. Hoje, com o ajuste feito, fica mais fácil
comparar nossa matriz com a de outros países, pelo fato do
Brasil adotar os mesmos parâmetros de comparação.
É importante lembrar aqui que a matriz não
pondera sobre a qualidade da energia, ou seja, não existe
uma ponderação para compensar a energia elétrica da sua capacidade
em se converter em outras formas de energia, com pequenas
perdas, comparada com outros energéticos.
Hoje o Brasil tem a seguinte situação se
comparado com o resto do mundo (vide tabela 1 abaixo), BEN
(2004):
Tabela 1. Energia:
Brasil x Mundo
|
Energia
|
Brasil (%)
|
Mundo (%)
|
|
Petróleo
e Derivados
Biomassa
Eletricidade
Gás
Natural
Carvão
|
43,2
27,2
13,6
7,5
6,6
|
34,9
11,5
2,3
21,0
23,5
|
|
Urânio
|
1,9
|
6,8
|
| |
|
|
Com relação ao gás
natural, o mesmo está sendo utilizado segundo (vide tabela
2 abaixo), BEN (2004):
Tabela 2. Gás Natural
no Brasil
|
Utilização
|
(%)
|
|
|
Indústria
Reinjetado/Flair
Geração
Elétrica
Automotivo
Não
Energético
|
42,7
26
14,4
4,7
3,6
|
|
|
Outros
|
8,6
|
|
| |
|
|
4. Uma Visão Futura para a Matriz Brasileira
Consumidor com poder de escolha, flexibilidade,
oferta de várias fontes de energéticos. Esta talvez seja
a vertente mais desejada para o consumidor final, que poderá escolher
qual o energético mais razoável segundo uma relação de custo/benefício.
A tecnologia do flex fuel é um exemplo concreto
desta tendência. Um carro bi-combustível, onde tem o incentivo
do carro a álcool nos impostos, a opção de se escolher álcool
ou gasolina e a virtude de não perder o valor na revenda,
ou mesmo de não ficar vulnerável a falta de um ou outro energético.
Temos também a tendência do motor diesel
com gás natural associado, que já foi desenvolvido e pode
ter uma importante participação no mercado de ônibus municipais
e geradores/co-geradores.
Temos, no setor industrial, a possibilidade
de se usar o gás natural juntamente com óleo pesado em queimadores,
onde o gás natural faz a vez do vapor para auxiliar na diluição
e dinamização do óleo pesado.
Sinergia entre as diversas opções para os
energéticos e em especial para o gás natural. É fácil de
ver que a distribuição do gás natural liquefeito (GNL) e
comprimido (GNC) irá alavancar o crescimento futuro do gás
natural canalizado. A formalização da liberação do uso do
GNL e GNC das esferas estaduais, fazendo uma legislação e
regulação através da ANP, de vigência nacional tende a expandir
o uso do gás natural para locais onde hoje é inviável o gás
canalizado, formando a massa critica necessária para no futuro
se dar à construção de dutos.
A sinergia deve se dar também nas diferentes
políticas governamentais, de projetos antigos e novos, como
o uso do gás natural veicular. Num país que produz excedente
de gasolina e já tem um programa de sucesso que usa o álcool,
utilizar o gás natural, com menos impostos, agrava este excedente.
Um país com déficit de diesel deveria focar e fomentar a
expansão do GNV para deslocar o diesel, com inúmeras vantagens,
como a ausência de enxofre e conseqüentemente redução de
chuvas ácidas nos grandes centros, com a redução de particulados,
entre outros. O gás natural poderia ser uma grande ferramenta
para reduzir a dependência do Brasil de petróleo, não somente
pelo uso do GNV em lugar do diesel, mas com aplicações industriais
do gás natural, na indústria gás química, em plantas de GTL
(gas to liquid).
O gás natural é considerado o segundo energético
mais nobre, sendo a energia elétrica o primeiro, de acordo
com Santos (2002). Seu uso deve ser nobre também, pois nobre é seu
potencial. A combustão direta se justifica quando desloca
a energia elétrica do meio produtivo. Já foi comentado que
os investimentos feitos nas hidrelétricas tinham que ser
amortizados e por isso o governo fomentou o uso da energia
elétrica nos processos produtivos, mesmo que fosse na geração
de calor ou vapor. A indústria calcou seus processos produtivos
encima disto. Existe, portanto, um grande potencial de uso
do gás natural na queima direta, substituindo estes processos
calcados no uso da energia elétrica.
Outros processos de queima direta que o
gás deve ser utilizado são naqueles onde existe um valor
agregado diferencial, como no caso da indústria de cerâmica
branca, onde o gás natural deslocou o GLP, outro derivado
de petróleo onde temos déficit.
O gás natural entra também na geração de
energia elétrica como suporte ao sistema de hidrelétricas.
Entra na época de seca prolongada, em picos, de forma a dar
maior robustez ao setor elétrico nacional. Ele tem a vocação
de ser usado em termoelétricas, mas não no Brasil que possui
a hidrologia que tem. A co-geração é outra utilização nobre
do gás natural. Desta forma, o setor elétrico deveria ver
o gás natural como uma ferramenta complementar ao sistema
elétrico atual.
Outro uso que pode ser fomentado, deslocando
novamente a energia elétrica, é na refrigeração, ar condicionado
e aquecimento de água residencial.
A Petrobrás deve e tem um papel fundamental
na expansão do gás natural na matriz brasileira. Mas além
da Petrobrás, o governo como um todo deve unir forças com
todas as entidades formadoras de opinião para disseminar
o uso do gás natural. Não temos uma cultura do gás no Brasil.
Um exemplo claro disto é que engenheiros civis têm durante
o curso de engenharia a disciplina de instalações elétricas
e hidráulicas, onde não se fala em instalações de gás. Vários
municípios não têm códigos de obra. Uma campanha nacional
deveria ser feita para que as construções brasileiras contemplassem
diversos tipos de energéticos, de forma a facilitar a penetração
do gás natural neste seguimento.
O fomento que o governo pode dar não é mais
a construção de grandes gasodutos, salvo raras exceções e
salvo os gasodutos de integração regional, com nossos vizinhos.
O grande fomento do governo deveria ser no desenvolvimento
de uma indústria de equipamentos de uso final, através de
redução de alíquotas, financiamentos facilitados e incentivos
para se produzir no Brasil e assim reduzir nossa dependência
externa.
O gás natural terá uma participação cada
vez mais importante na matriz brasileira, pois novas reservas
foram descobertas e muitas áreas propícias não foram verificadas.
Além disso, nossos vizinhos já possuem grandes reservas,
e o GN poderá ser uma excelente ferramenta de integração
regional, intensificando o comércio entre Brasil, Bolívia,
Argentina e Peru.
O gás natural é descrito por Santos (2002)
com o combustível da transição. Transição esta de um mundo
com uma cultura do petróleo, para outro mundo com uma cultura
com usos de energéticos alternativos e sustentáveis. Existe
o exemplo do uso do GN em células combustíveis, na produção
de metanol e hidrogênio.
As possibilidades de negócios são grandes.
Faltam regras claras e um marco regulatório sólido para atrair
os investimentos necessários. Falta também construir uma
cultura do gás, para fazer desabrochar uma indústria do gás
no Brasil. As iniciativas podem começar com os formadores
de opinião: universidades, empresários, profissionais liberais.
A matriz energética brasileira continuará a
ser particular, com uma excelente participação da energia
elétrica de hidrelétricas, pois o Brasil é uma nação privilegiada
em sua hidrologia. O GN entra como suporte para este sistema
baseado em hidrelétricas.
Entretanto, falta uma política industrial
para o país, da mesma forma que houve na era desenvolvimentista.
Falta uma definição se o Brasil seguirá como fornecedor de
matéria prima eletro-intensiva ou irá se desenvolver com
produtos e processos que utilizem quantidades menores de
energia.
5. Conclusão
O desenvolvimento industrial e do setor
energético no Brasil teve uma profunda influência do governo
em atuar como ator principal no desbravamento de vários setores
da economia, como siderurgia, mineração, eletricidade, petróleo,
indústria de base de um modo geral.
Mesmo no caso mais recente, com a construção
do gasbol, a atuação do governo, através da Petrobrás, viabilizou
o gás natural como um energético viável e possível para o
Brasil.
A maior contribuição que o governo atual
pode dar para o desenvolvimento energético como um todo e
principalmente do gás natural é ter uma política clara, criar
um marco regulatório estável, criar condições para atrair
os investimentos externos no desenvolvimento destes setores.
Diversos esforços foram feitos pelo governo
para minimizar a dependência do petróleo importado. Porém,
estes esforços necessitam ter sinergia entre si. Os diversos
programas e fomentos devem se somar e não concorrer uns com
os outros. Este erro o governo está fazendo ao direcionar
o GNV para a frota de automóveis que usa gasolina e álcool.
Desta forma, existe uma correção de rota a ser tomada pelo
governo, fomentando o GNV para deslocar o uso do diesel.
Existe uma barreira cultural para a expansão
do gás natural no Brasil. Os esforços do governo não devem
ser canalizados na construção de gasodutos, mas na regulamentação
federal do GNL e GNC; além de fazer parcerias com todas as
organizações e instituições formadoras de opinião entre outras,
para introduzir a cultura do gás nas faculdades, escolas
e prefeituras.
Existe um grande potencial de uso do GN
na indústria, deslocando a energia elétrica em processos
de produção de calor e vapor, onde o governo poderia fomentar
financiamentos para a modernização dos processos industriais
brasileiros.
O gás natural é um energético nobre e nobre
deve ser seu uso. É um energético que irá ocupar um importante
papel na matriz brasileira, quer porque temos reservas significativas,
quer porque nossos vizinhos também e também porque é um energético
que pode fazer a transição de uma cultura voltada ao uso
do petróleo, para outra voltada a combustíveis alternativos,
por exemplo o uso do GN em células de combustível.
6. Agradecimentos
Agradeço ao meu orientador, prof. Dr. Edmilson
Moutinho dos Santos, pela confiança demonstrada e pelas oportunidades
dadas para meu desenvolvimento.
Agradeço também à minha esposa, Beatriz
Braga de Oliveira Fernandes, pelo carinho, paciência em compreensão
pelas horas que não pude estar com ela.
7. Referências
BEN: Balanço Energético Nacional de 2003,
Ministério de Minas e Energia, Brasília, 168 p., 2004.
BERMANN, C. Os
limites dos aproveitamentos energéticos para fins elétricos:
uma análise política da questão energética e de suas repercussões
sócio-ambientais no Brasil. Tese de Doutoramento FEM/UNICAMP,
nov/1991, Parte III: Energia Elétrica e Sociedade, capítulo
X: A mercadoria energética, o capital e a mediação do
Estado, pp. 194-215, 1991.
ELETROBRAS. Memória da Eletricidade. Disponível
em: http:\www.memória.eletrobrás.com.index.asp. Acesso em 2004.
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et dèveloppement énergétique du Brésil. Travaux Memoires
de L'Institut des Hautes Études de L'Amérique Latine, Université de
Paris, Paris, 1966.
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Paulo, Ed. ANNABLUME, agosto/02,
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