Situação de Oferta e Demanda de Gás
Natural no Cone Sul
*PIPGE/USP - PROGRAMA INTERUNIDADES
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENERGIA / IEE-USP, aluno regular do doutorado (apresentador
do trabalho), endereço:
Rua Nebraska, 489 - ap.: 81 - bairro: Nebraska - CEP 04560-011 - São
Paulo - SP, fone: (11)50939429 ou 99129193, e-mail: fernandes.flavio@uol.com.br;
**PIPGE/USP
- PROGRAMA INTERUNIDADES DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENERGIA / IEE-USP, professor
doutor, endereço: Av. Prof. Luciano Gualberto, 1289 - bairro: Cidade
Universitária - CEP 05508-010Sao Paulo - SP, fone
(11) 30912641, e-mail: edsantos@iee.usp.br.
RESUMO:
Este artigo faz um breve histórico
do uso de diferentes tipos de energia no Brasil; as mudanças ocorridas
depois da crise do petróleo de 1973; faz uma análise das tendências
mundiais com relação ao gás natural; uma análise da matriz energética
brasileira atual e mostra a realidade dos países vizinhos. Por fim
faz reflexões sobre todas as informações levantadas mostrando oportunidades
que podem ser desenvolvidas para o crescimento do gás natural no Brasil
e região. As reflexões abordam também as preocupações dos autores com
relação aos problemas a serem resolvidos para se obter o crescimento
do uso de gás natural da forma desejada.
ABSTRACT:
This paper makes a brief historic
about the use of different types of energy in Brazil; the changes that happened after the petroleum
crise in 1973; makes an analysis of world tendencies regarding natural
gas; an analysis about Brazilian energetic matrix nowadays and shows
the reality of neighborhoods countries. Indeed makes reflections about
all information arisen describing opportunities that could be develop
to increase the use of natural gas in Brazil and region. The reflections
also consider the worries from the authors regarding the problems to
be solved to increase the use o natural gas in a desired way.
1. HISTÓRICO
O Brasil utiliza desde o descobrimento a lenha como combustível.
Este combustível passou pelo ciclo da cana de açúcar aquecendo os tachos
onde eram feitos o melado, rapadura e o açúcar mascavo, sendo este último
exportado para Holanda onde era refinado.
Depois da lenha, veio o uso do carvão vegetal e mineral. Este
tipo de energético coincide com o surgimento dos primeiros agrupamentos
significativos de indústrias no Brasil. Este fato é devido a vários
fatores: o ciclo do café que gerou um excedente de renda para os fazendeiros
que passaram a diversificar os investimentos; a vinda dos imigrantes
europeus para o café, porém parte destes eram artesões que acabaram
ficando nos grandes centros, principalmente na cidade de São Paulo;
a difusão das ferrovias para trazer o café do interior paulista até o
porto de Santos, sendo que os trens, além de utilizarem lenha ou mesmo
o carvão, dinamizaram o fluxo de carga, contribuindo assim para aumentar
os potenciais clientes dos produtos industrializados.
No século XX surge é disseminada a energia elétrica. Esta
forma versátil de energia, com alta taxa de eficiência na conversão
para outras formas de energia impulsionou as indústrias, modernizou
a siderurgia por conseguir elevar o nível de temperatura nas fundições,
além de viabilizar a criação de uma série de equipamentos e aparelhos
que trouxeram maior conforto para as populações urbanas, num primeiro
momento e depois atingindo a quase totalidade das populações mundiais.
No século XX, dissemina-se também o petróleo e com ele toda
uma série de materiais antes inexistentes. Além disso, o petróleo alterou
completamente a matriz energética do mundo. Seus derivados combustíveis
movendo motores a combustão ou turbina, ou ainda a queima direta trouxe
uma nova perspectiva para a economia mundial. O petróleo é hoje o energético
de maior uso no mundo inteiro, superando o carvão já na primeira metade
do século XX.
Com a crise do petróleo de 1973, os governos de todo o mundo
reagiram de alguma forma para se protegerem dos aumentos no preço do
barril. Aproveitando os financiamentos a juros baixos que eram possíveis
naquela época por causa dos petrodólares, a Argentina por exemplo intensificou
sua expansão no uso do gás natural, por ter grandes reservas. Seu uso
na produção de energia elétrica e a sua massificação consumiram grandes
montantes de dinheiro. Na França, o governo construiu várias usinas
elétricas termonucleares, passando a produzir em excesso e exportar
o excedente para outros países vizinhos. No Brasil, o governo intensificou
a construção de grandes hidrelétricas e fomentou a pesquisa na exploração
de petróleo em águas profundas. Outros países adotaram políticas distintas
com relação ao petróleo. O Japão, por exemplo, teve e tem uma matriz
muito dependente de petróleo. Ele não buscou a redução desta dependência,
mas viu nesta uma oportunidade de ampliar suas relações comerciais.
Com os parceiros que comprava petróleo passou a pagar com ienes, de
forma a facilitar a exportação de produtos manufaturados, com alto
valor agregado. Outra alteração feita foi com relação a sua política
industrial, uma vez que possuía indústria intensiva no uso de energia
elétrica (era o maior produtor de alumínio do mundo na época). O Japão
simplesmente desmantelou este tipo de indústria, mexendo significativamente
com seu consumo de energia elétrica que era praticamente toda ela produzida
por termoelétricas.
O gás natural, que começou a ser utilizado em larga escala
nos EUA, teve um desenvolvimento pontual, ou seja, paises que tinham
reservas significativas passaram a utiliza-las. Este é o caso da Argentina,
EUA, Venezuela, antiga URSS. Com a mudança política mundial e o desmantelamento
da URSS, a Rússia passou a exportar gás natural para vários países
da Europa. As descobertas de reservas no mar do norte também aumentaram
significativamente o uso do gás natural no Reino Unido, deslocando
o carvão nas termoelétricas, ou mesmo na sua utilização residencial,
comercial e industrial substituindo o gás manufaturado do carvão.
O gás natural é definido hoje como o combustível de transição;
transição de um mundo dominado pelo carvão e principalmente o petróleo
para um mundo com uma diversidade maior de fontes energéticas. Seu
crescimento em consumo é maior do que o crescimento no consumo global
de energia. Diversos relatórios de tendências mostram claramente que
nos próximos 20 anos teremos um crescimento muito grande deste energético.
2. CORPO
DO TEXTO
2.1 Tendência Mundial
O documento sobre o consumo global de gás natural (IEA, 2002)
traz os seguintes dados: no ano de 1981 o consumo global de gás natural
era de 2.569 bcm (bilions of cubic meter) e ocupava 23% da matriz mundial.
A previsão de crescimento de seu uso era aumentar para 28% da matriz
mundial até o ano de 2030, onde seu consumo mundial seria de 5.047
bcm. Isto significa um crescimento de 2,4% ao ano.
Outros pontos levantados neste
documento são referentes a utilização deste gás, onde 50% será destinada
a produção de energia elétrica. E ainda, o montante de investimentos
necessários para se chegar a esta participação na matriz mundial. Serão
necessários U$ 3,1 trilhão entre 2001 e 2030, ou U$ 105 bilhões anuais,
sendo que a previsão é de que 55% serão destinados para exploração
e produção.
Outro documento EXXONMOBIL
(2003) mostra dados e previsões parecidos. No ano 2000 o consumo mundial
era de 200 MBDOE (Milion of Barris per Day of Oil Equivalent). A previsão é de
que em 2020 o consumo mundial será de 290 MBDOE representando uma participação
na matriz mundial de 24%. O crescimento será também de 2,4% ao ano,
quando a previsão de crescimento global de energia será de 1,7%. Porém
o setor industrial irá crescer 1,9%; o residencial e comercial 2,1%
e a geração de energia elétrica 3%. Além disso, 40% do crescimento
serão devido ao crescimento de países menos desenvolvidos. A distribuição
regional deste crescimento ocorrerá da seguinte forma: América do Norte
com 1,1%; Ásia com 4,5%; África e Oriente Médio com 3,4% e América
Latina com 3%.
Estes documentos reforçam a
idéia de que o consumo de gás natural irá crescer nos próximos 20 anos.
Outro fato importante a ser
considerado é que este crescimento será em grande parte dedicado a
geração de energia elétrica. Com é um combustível que apresenta um
problema de logística, segundo JARVIS (1993), pois necessita ser transportado
por dutos até seu consumidor, outra tendência é o desenvolvimento tecnológico
em processos alternativos de transporte, como o GNL (Gás Natural Liquefeito)
e o GNC (Gás Natural Comprimido). Ambos podem ser considerados como
etapas no desenvolvimento de novos mercados, ou seja, em regiões muito
distantes entre as reservas e o consumidor.
No GNL o gás natural é liquefeito
de forma criogênica, abaixando sua temperatura para menos de 160°C
negativos. Desta forma grandes distâncias podem ser percorridas por
trens ou navios, denominados metaneiros, até o ponto de destina a ser
distribuído onde uma planta de regaseificação tranforma o gás natural
em fase gasosa novamente. Só para termos uma idéia do crescimento deste
tipo de uso, nos EUA 2% do gás natural utilizado atualmente é nesta
forma, sendo que a previsão é de que em 2020 esta participação suba
para 25 a 30%. É uma alternativa viável de transporte quando as distâncias
são superiores a 2.000 km.
No GNC o gás natural é comprimido
a pressões de 200 atmosferas ou mais, em um processo idêntico ao utilizado
no GNV (Gás Natural Veicular). É então transportado por caminhões em
tanques na forma de feixes até o local a ser distribuído. Uma estação
receptora redutora de pressão é necessária. É uma alternativa viável
de transporte quando as distâncias são superiores a 400 km e inferiores
a 2.000 km.
Outro processo que irá se desenvolver é o
GTL (Gas To Liquid) ou seja, processar o gás natural e transforma-lo
em combustíveis líquidos e GLP (Gás Liquefeito de Petróleo). A tendência é o
aperfeiçoamento de pequenas plantas a serem instaladas em regiões das
reservas em áreas remotas. Ao invés de se queimar o gás natural em
flare ou não utiliza-lo a transformação deste permite o fácil transporte.
Com a tendência do aumento
do barril de petróleo e o desenvolvimento tecnológico que reduz os
custos de investimentos necessários ou de produção irão auxiliar a
expansão do uso do gás natural.
2.2 A Situação do Cone Sul
A Argentina é o único país no cone sul que tem uma indústria
do gás desenvolvida. O gás natural ocupa na Argentina cerca de 50%
da matriz energética. O Estado massificou o uso de gás natural principalmente
após a crise do petróleo de 1973 e com a facilidade de empréstimos
externos oriundos dos petro-dólares. Esta grande presença do gás natural
se dá tanto nas indústrias, como também no comércio, GNV e um grande
número de residências. Dados da Metrogás CARCAGNO (2001) apontam que
seus clientes em 2001 estavam próximos de 2 Milhões e seu crescimento
vegetativo era da ordem de 40 mil clientes novos por ano.
Com a recente crise, a inadimplência prejudicou os investimentos
da empresa. Com a retomada do crescimento econômico e o aumento das
atividades industriais houve a falta de gás natural. Para não provocar
o colapso interno a Argentina deixou de honrar contratos de exportação
de GN com Brasil e Chile. A situação pode se tornar crítica se novos
investimentos não forem feitos.
A Bolívia tem uma grande reserva, mas não tem consumidor interno
que justifique grandes investimentos para monetizar estas reservas.
A opção da Bolívia é exportar o GN, porém tentativas de exportação
para os EUA via Chile foram rechaçadas pela população, que depôs o
governo. O radicalismo paira sobre a Bolívia. A Petrobrás já fez e
continua fazendo grandes investimentos no país INE (2004), porém existe
uma incerteza sobre o futuro.
A participação da Bolívia na ampliação do uso de GN no Brasil é fundamental
e deve continuar sendo, mesmo com as descobertas da bacia de Santos.
O Peru também já tem reservas significativas e pode se somar
aos outros três países como um bloco para negociações, exportações
e compartilhamento de projetos conjuntos.
Se pensarmos além do cone sul, temos ainda a Venezuela, com
as maiores reservas da América do Sul.
2.3 A Matriz Energética Nacional
No Brasil, o petróleo tem uma participação maciça na sua matriz
energética. Este fato foi agravado pela escolha do transporte rodoviário
em detrimento do ferroviário.
Esta dependência de importações ocorreu, pois o Brasil não
possui reservas de petróleo em terra. Com a crise do petróleo deflagrada
pela OPEP em 1973, a dependência do Brasil era de 80% de petróleo importado.
Como foi mencionado acima, para reverter a dependência, o
governo brasileiro construiu mais hidrelétricas e fomentou as pesquisas
de exploração de petróleo em águas profundas.
A primeira escolha, a construção de hidrelétricas, trouxe
uma abundância de energia elétrica. Para haver a amortização dos investimentos,
o governo fomentou seu uso na indústria, principalmente na parte térmica,
ou seja, para produção de calor e vapor, legado que carregamos até hoje
em diversos processos produtivos.
A segunda escolha trouxe o desenvolvimento da técnica de exploração
de poços de petróleo em águas profundas que permitiu com que a Petrobrás
mudasse este quadro de dependência. Hoje é o oposto, importamos 12,8%
e existe uma previsão de que em 2006-2007 o Brasil se torne auto-suficiente.
Outra alternativa lançada pelo Brasil foi o Proálcool, o maior
e mais bem sucedido programa de governo para combustíveis renováveis
no mundo. Esta alternativa, mesmo sendo subsidiada no seu início,
foi interessante para o país, pois houve um crescimento muito grande
da indústria açúcar-álcooleira. Hoje o Brasil é o maior produtor e
exportador de açúcar. Além disso, o álcool é uma alternativa muito
superior ao chumbo tetraetila adicionado na gasolina.
Nos últimos anos uma ampliação do uso de gás natural tem sido
observada. Apesar da disponibilidade de gás e do empenho das distribuidoras
este crescimento não tem sido suficiente para completar a demanda estimada
no contrato de take or pay com a Bolívia.
A matriz energética brasileira é dividida da seguinte forma
segundo BEN (2004):
|
Tipo
de Energético / Energia
|
Percentual
da Matriz Energética
|
|
Álcool
|
3,5%
|
|
Energia
Elétrica
|
15,6%
|
|
Total
de Derivados de Petróleo
|
46,7%
|
|
Gás
Natural
|
5,6%
|
|
Lenha
|
8,1%
|
|
Cana
|
9,9%
|
|
Outros
|
10,6%
|
O gás natural foi o que apresentou o maior crescimento nos últimos
três anos (2000, 2001 e 2002), demonstrando que a construção do GASBOL
e o trabalho das distribuidoras têm surtido efeito. Porém, ainda é um
crescimento aquém do esperado.
Segundo BEN (2004) a oferta de gás natural no Brasil é de
57,1 Mm3/dia, em média no ano de 2002. Deste total, 47,5% é consumido
pela Petrobrás, sendo 21,8% reinjetado em poços de petróleo (para sua
extração), 12,0% para consumo próprio e 13,7% queimado em flares.
Deste total ofertado, 25,3% foi importado de acordo com a
seguinte divisão:
· Bolívia
90,7%, sendo Petrobrás com 71,5%, EPE com 8,5% (responsável pelo fornecimento
da termoelétrica de Cuiabá II), BG com 10,7% (repassado para a Comgás,
onde é a maior acionista);
· Argentina
9,3% pela Sulgás (responsável pela usina térmica de Uruguaiana no RS).
2.4 Análise da Matriz Brasileira: Tendências
e Oportunidades
Segundo BEN (2004), 46,7% da
matriz energética brasileira é de produtos de petróleo. O diesel ocupa
o primeiro lugar com 17,9% da matriz brasileira. Basicamente o Brasil
tem um sistema de transporte eminentemente rodoviário, com o transporte
de cargas por caminhões, movidos a diesel. Outra utilização do diesel é em
geradores de energia elétrica em locais de difícil acesso em regiões
longínquas. Desta forma o Brasil necessita de diesel. Mesmo com a importação
de petróleo e seu refinamento interno, o Brasil importa diesel in natura
para abastecer sua frota e atender sua demanda.
Existem duas grandes oportunidades
de se reduzir a dependência das importações de diesel: o uso do gás
natural veicular para a substituição de diesel e o biodiesel.
Hoje o GNV (gás natural veicular) está direcionado para substituir
a gasolina e o álcool, que temos em excesso. Além disso, a gasolina
carrega uma carga de impostos muito superior ao GNV. Os governadores
não têm noção disso, mas com a expansão do GNV haverá redução de receitas
e com certeza futuramente os governadores irão aumentar a carga de
impostos sobre o GNV, inviabilizando esta alternativa. O teto de tarifa
para o GNV é o menor que existe entre todas as aplicações de GN, ou
seja, o metro cúbico de GNV é mais barato do que o metro cúbico de
GN para uma termoelétrica ou cogeração, mais ainda em relação ao uso
industrial e muito mais comparado ao uso comercial e residencial. Isto
significa que para as distribuidoras, o GNV é o pior negócio considerando
a rentabilidade. Ele é viável hoje, porque existem contratos de take
or pay onde é preferível vender com pouco lucro do que não vender e
ter que pagar pelo gás de qualquer maneira. É possível encontrar apenas
dois bons motivos para entender porque o GNV está hoje direcionado
para deslocar a gasolina e álcool: obter uma massa crítica de postos,
oficinas de conversão, volume de gás natural; e por razões ambientais,
desde que a conversão seja bem feita, pois do contrário a poluição
chega a ser cinco vezes maior.
Outra forma de reduzir as importações
de diesel é com o biodiesel, que pode ser uma fonte viável. O biodiesel é feito
de óleo vegetal em reação com álcool anidro (o mesmo álcool dos postos)
. Somos os maiores produtores mundiais de álcool e de soja (fonte de óleo
vegetal). O único cuidado a ser tomado é a ampliação desmensurada da
fronteira agrícola. O Brasil conseguiu um excelente desenvolvimento
de sua fronteira agrícola graças ao desenvolvimento tecnológico, muito
devido a Embrapa. Conseguimos anos consecutivos de safras recorde,
conseguindo produzir mais na mesma área plantada. Uma demanda que possa
aumentar vertiginosamente a área plantada pode significar uma ampliação
muito grande das áreas plantadas, áreas estas que podem ser de matas
nativas, intensificando o desmatamento brasileiro. Este é um cuidado
a ser tomado pelo governo brasileiro, caso aposte nesta alternativa.
Além do diesel, o Brasil tem
um uso intensivo de GLP na cocção de alimentos. O GLP foi amplamente
difundido no Brasil, tendo grandes produtores de fogões a gás de uso
doméstico. Com este combustível é possível chegar nos mais profundos
grotões de nosso território, em locais aonde não chegou ainda à energia
elétrica. Nestes locais é até usado em refrigeradores. Com esta utilização
intensiva, apesar de produzir parte do necessário nas nossas refinarias,
o Brasil importa cerca de 40% do GLP necessário para seu consumo interno.
Os governos passados incentivaram
esta difusão no uso reduzindo o preço do GLP através do subsídio, pago
pela gasolina. Mesmo com a retirada deste subsídio, o GLP ocupa um
lugar de destaque no consumo residencial.
O GLP desloca, em geral, a
lenha. É portanto um energético que deve ser trabalhado com atenção,
pelo impacto ambiental benéfico que se pode ter. Uma das alternativas
de se reduzir a dependência do GLP importado é através de pequenas
plantas de GTL (gas to liquid), ou seja, transformar gás natural que
estejam em locais de difícil acesso, em combustíveis líquidos (gasolina,
diesel e GLP). Outra forma de se reduzir as importações é com o deslocamento
do GLP através da ampliação do GN, massificando o uso do GN.
O Brasil tem excedente de gasolina
e de óleos combustíveis. Um cuidado a ser tomado é com a disputa de
mercados onde o GN possa a vir agravar este excedente. Já abordamos
o caso do GNV, porém o óleo combustível é outro caso que pode representar
dificuldade de crescimento do GN nas indústrias, pois não consegue
competir em preço com os óleos, em geral. Uma alternativa para os óleos
combustíveis seria em termoelétricas, onde em condições controladas
a poluição seria mínima.
Se pensarmos em projetos integrados,
o Brasil poderia construir uma planta de GNL com várias finalidades:
- Viabilizar o GASBOL, acrescentando valor
agregado ao gás boliviano e viabilizando as exportações bolivianas
via GASBOL para a costa leste norte americana.
- Ampliar o uso de GN no Brasil em regiões
onde não é viável hoje a construção de gasodutos, criando um mercado
que poderá futuramente até viabilizar estes gasodutos.
- Aproveitar a sazonalidade das exportações
que ocorrem principalmente nos meses de novembro a março, para reforçar
o sistema elétrico durante o período de estiagem que ocorre fora desta época,
otimizando todo o sistema.
Quando abordamos a importação do gás natural, pode parecer
que este é um fato que desequilibra a nossa balança comercial. Mas
a realidade é justamente oposta. Semelhante ao que faz o Japão, que
usou a importação de petróleo e gás para fomentar suas exportações
de produtos manufaturados, com alto valor agregado, o Brasil está trazendo
divisas no comércio com a Bolívia. Segundo INE (2004), as exportações
bolivianas em 2001 para o Brasil foram de 288,41 milhões de dólares.
Em 2002 os dados preliminares apontam para U$328,38 milhões, já as
importações bolivianas foram de U$276,44 milhões em 2001 e U$389,90
milhões em 2002. O saldo, que foi positivo para a Bolívia em 2001 em
U$11,97 milhões, aponta um superávit de U$61,52 milhões para o Brasil
em 2002. O mais importante é que as exportações brasileiras são 50%
de insumos industriais, 15% de bens de capital e o restante em alimentos, bebidas
e bens de consumo. Estes dados mostram claramente que o gás natural
pode ser uma excelente ferramenta para aumentar a integração comercial
do Brasil com seus vizinhos.
Outra oportunidade que existe para ampliação do gás natural é este
ocupar espaço deslocando a energia elétrica quando esta é utilizada
em eletrotermia. O Brasil, na opção que fez de ampliar seu parque de
hidrelétricas após a crise de 1973, gerou excesso de oferta. Como os
projetos precisavam ser amortizados, o governo fomentou o uso da energia
elétrica no setor industrial. Boa parte desta energia elétrica foi
utilizada na geração de calor e vapor. Parte deste tipo de uso já se
reverteu, mas parte ainda carrega esta herança.
Segundo LIMA (2004), as reservas
descobertas em Santos estão divididas em dois blocos. Um com uma profundidade
de cerca de 500 m e outro com profundidade de cerca de 1500 m. Os estudos
da Petrobrás prevêem que somente em 2009, na melhor das hipóteses em
2008 é que o gás da bacia de Santos começará a ser utilizado. Contando
com esta descoberta recente, as reservas provadas de GN brasileiras
são de 316,18 bcm e 465 bcm de reservas prováveis, possíveis e provadas.
Este valor de 465 bcm coloca
o Brasil em 33º lugar comparado com os demais países, segundo GAS ENERGIA
(2004). Se adicionarmos a este valor as reservas argentinas e bolivianas
chegaremos a 1,91 Trilhão de metros cúbicos, colocando este bloco em
16° lugar. Se adicionarmos ainda a Venezuela, chegaremos a 6,10 Trilhões
de metros cúbicos e obteremos um bloco na 5° posição mundial. Este
exercício mostra que devemos pensar em GN de forma regional, utilizando
este como um integrador regional.
2.5 As Preocupações
Projetos de construção de gasodutos sem a devida constatação
de sua viabilidade econômica e financeira não podem ocorrer. Falar
em outros grandes projetos sem viabilizar o GASBOL não faz sentido.
O gás natural não é considerado
uma commodity como o petróleo, por exemplo. Porém, com a construção
de uma planta de GNL este conceito pode mudar. Como uma commodity os
preços podem oscilar e podem comprometer uma política de preços baixos
do gás natural.
Com a descoberta das reservas
da bacia de Santos, idéias de auto-suficiência começam a aflorar. Projetos
de gasodutos de integração com países vizinhos (como a Argentina) começam
a sair da pauta de discussão.
Pensamentos de auto-suficiência
fecham as oportunidades maiores de usar o GN como um instrumento de
integração regional, aumentando o comércio, viabilizando grandes projetos
(como uma planta de GNL, grandes gasodutos) e negociando um conjunto
as possíveis exportações.
A ausência de um marco regulatório
com regras claras para o GN canalizado, GNC e GNL. A falta deste marco
aumenta o risco de qualquer negócio nestas áreas e dificulta os investimentos
externos no Brasil.
Políticas para o GN antagônicas
com os interesses nacionais podem comprometer o crescimento do GN no
Brasil, como exemplo já citado o caso do GNV que está deslocando a
gasolina e o álcool, ou invés de deslocar o diesel.
Outra preocupação ainda é utilizar
o GN de forma menos racional, com processos de baixa eficiência térmica.
Todos estes pontos levantados
são fatores que podem dificultar a ampliação do gás natural no cone
sul.
3. CONCLUSÕES
Existe no mundo uma tendência e uma predisposição para a ampliação
do uso de gás natural. Esta tendência é mais forte na América Latina,
no Brasil especificamente, como podemos observar nos últimos 3 anos.
O crescimento tem sido muito
grande, porém aquém do que foi planejado pelo governo brasileiro. Alguns
obstáculos devem ser removidos, para garantir investimentos necessários
e projetos que tenham sustentação ao longo dos anos e não seja uma
bolha.
Um dos grandes problemas enfrentados
no Brasil é com relação a falta de cultura do gás natural. Este quadro
ajuda a explicar alguns projetos ou tendências de projetos que conflitam
com as reais necessidades do país, como por exemplo o GNV.
A busca pela sinergia dos projetos
e principalmente projetos de integração com nossos países vizinhos
são a melhor alternativa para o Brasil aumentar seu comércio com estes
países, conseguir viabilizar projetos que necessitam ter grandes escalas
de GN, como uma planta de GNL e que irão auxiliar no maior crescimento
do uso de GN, eliminando as barreiras logísticas existentes hoje com
o GN canalizado. Entretanto, a ausência de um marco regulatório dificulta
a vinda de investimentos externos e a viabilização de projetos.
Outras formas de processamentos
do GN, principalmente aquele queimado em flares, podem ser uma alternativa
de se utilizar o GN de forma mais racional, como pequenas plantas de
GTL transformando o GN em combustíveis líquidos e GLP e resolvendo
seu problema de logística.
Estudos dos processos produtivos,
que utilizam a eletrotermia, tem seu espaço de sucesso e podem auxiliar
a expansão do GN e o uso mais racional da energia elétrica.
4. BIBLIOGRAFIA
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Energia, Brasília, 168 p.
BIER,
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P. L. (2001), Gerente de Planeamiento de Operaciones da Metrogas, em
informação pessoal.
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LIMA,
V. Q. (2004) Gerente de Planos de Negócios da Petrobrás, em informação
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