REFLEXÕES SOBRE O FUTURO DO GÁS NATURAL NO BRASIL
E NA REGIÃO SUDESTE APÓS A DESCOBERTA DAS RESERVAS NA BACIA DE SANTOS
*PIPGE/USP - PROGRAMA INTERUNIDADES DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM ENERGIA / USP, doutorando; IDEM, professor doutor.
RESUMO:
Este artigo faz reflexões
e ponderações sobre as perspectivas de uso do gás natural no Brasil
e, em particular na região Sudeste, considerando a duplicação das
reservas gasíferas brasileiras após as grandes descobertas realizadas
na bacia de Santos. Tais descobertas, significativas em quantidade
e proximidade do grande centro consumidor de São Paulo, permitem
o uso do gás natural em projetos de grande porte, que podem direcionar
o crescimento industrial do país em setores específicos. O texto
propõe alternativas de projetos, estabelecendo estratégias para
estimular os usos finais do gás natural, e ressaltam a importância
destas descobertas para reforçar as parcerias com outros países
produtores vizinhos, a Bolívia e a Argentina.
ABSTRACT:
This article discusses
about the perspectives for using natural gas in Brazil and particularly in its Southeast region, taking into consideration
the recent large gas discoveries in the Santos Basin, which have already doubled the Brazilian gas reserves. Such discoveries
are very significant given the volumes of gas found in place and
their proximity to major consumption centers in the state of Sao
Paulo. It is possible to use the natural
gas in large industrial projects, promoting therefore faster industrial
growth in specific sectors. The text brings about alternative strategies
for stimulating final uses of the gas, and also emphasizes the
importance of strengthening the integration between those discoveries
and the gas coming from other neighboring producing countries such
as Bolivia and Argentina.
1. HISTÓRICO
Um grande salto dado pela humanidade ocorreu
através da descoberta e do domínio do fogo. Este, como mostra FERNANDES
(1999), passou a ser utilizado na proteção contra os predadores,
na iluminação, no aquecimento, no cozimento dos alimentos e conseqüente
prolongamento do seu estado de conservação. A primeira fonte para
obter-se o fogo foi à lenha e a palha. O raio das tempestades permitia
sua ignição. Com o passar do tempo, o Homem foi dominando a arte
de fazer fogo.
Em seguida, o fogo propiciou ao Homem um
novo grande salto através do domínio dos metais (inicialmente o bronze
e depois o ferro). Diz a lenda, descrita em SEARS (1977), que foram
os chineses, a mais de 2000 anos a.C., os primeiros a utilizar o
gás como combustível. Este era obtido naturalmente, a partir de poços
rasos que existiam em determinados lugares, sendo canalizado através
de tubos de bambu até as áreas de consumo. O gás natural era então
utilizado na evaporação da água do mar, obtendo-se o sal.
Os energéticos sempre estiveram intimamente
relacionados ao desenvolvimento da humanidade. O carvão mineral propiciou
a revolução industrial do século XIX. Em seguida, ao longo do século
XX, foi o petróleo e seus derivados que obtiveram um amplo domínio
e possibilitaram, entre outros, a implantação da indústria automobilística
e da petroquímica.
A primeira utilização em larga escala do
gás natural ocorreu nos Estados Unidos, antes da Segunda Guerra Mundial.
Na Europa, principalmente após a década de 1950, com a comercialização
do gás natural da antiga URSS, o carvão também começou a ser substituído,
na indústria, no comércio e em residências. Atualmente, o gás natural é reconhecido
com um combustível fundamental para a expansão da geração termoelétrica.
Cabe lembrar que a maioria dos países não possui a rica hidrologia
existente no Brasil, e que possibilita o amplo uso de hidrelétricas
ao invés de uma geração predominantemente térmica.
No Brasil, o gás natural começou tímido,
ocupando, inicialmente, o pequeno espaço anteriormente dedicado ao
gás manufaturado a partir da nafta do petróleo. No estado de São
Paulo, a última conversão do gás manufaturado para o gás natural
ocorreu em fevereiro de 1997. No Rio de Janeiro, prevê-se a total
disseminação do gás natural, em redes antigas já existentes desde
a época do Barão de Mauá, a partir de 2007.
Porém, o crescimento do mercado brasileiro
de gás natural foi bastante modesto até meados da década de 1990.
Conforme descreve SANTOS (2002), até 1995, a participação do gás
natural na matriz energética brasileira esteve estagnada abaixo de
2,5%. A partir de 1996, iniciou-se um avanço gradual. Em 1999, o
gás natural respondeu por apenas 3% do suprimento de energia primária
total do país (cerca de 7,6 milhões de toneladas equivalentes de
petróleo - tep). Mesmo assim, isso representou um substancial crescimento
quando comparado com a parcela insignificante de 0,2% (150 mil tep)
no final da década de 1970.
Em 1999, com a construção do gasoduto Brasil-Bolívia,
uma grande quantidade de gás foi disponibilizada para a região Sudeste
do Brasil. Tal oferta foi ancorada em contratos de suprimento com
cláusulas de "take-or-pay" (pagamento sobre demandas previamente
contratadas), que viabilizaram os investimentos em produção, transporte
e distribuição de gás, conectando reservas gasíferas na Bolívia e
consumidores brasileiros em um único mercado regional. Com uma oferta
de gás inicialmente muito superior ao consumo real, o Brasil adentrou,
definitivamente, na "Era do Gás", procurando tecer políticas consistentes
para o crescimento da utilização do gás e a absorção de todo o potencial
contratado da Bolívia.
Paralelamente, as campanhas de exploração
e produção de petróleo e gás nas bacias sedimentares brasileiras
se aceleraram desde 1997, após a flexibilização do monopólio nacional.
Em 2003 e 2004, a Petrobrás e outras empresas passaram a anunciar
grandes descobertas de reservas de gás na Bacia de Santos. Em curto
intervalo de tempo, as reservas provadas brasileiras deverão mais
do que dobrar. Partindo-se de cerca de 240 bilhões de metros cúbicos
em janeiro de 2003 (BEN, 2003), estima-se que tais reservas deverão
ultrapassar os 500 bilhões de metros cúbicos em 2004. A enfatizar
que a localização desses novos campos produtores de gás é privilegiada,
pois se encontram muito próximos dos grandes centros consumidores
da região Sudeste. Surge, portanto, um desafio ainda mais premente
de desenvolver mercados apropriados para essas quantidades crescentes
de gás, permitindo ao Brasil destacar-se no cenário mundial gasífero
como consumidor e produtor.
2. A
IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA DO GÁS NATURAL
Não é somente a grande disponibilidade que justifica
um uso cada vez mais amplificado do gás natural. De fato, em exercício
bastante simples, admitindo-se que as reservas gasíferas brasileiras
atinjam os 500 bilhões de metros cúbicos e nenhuma nova descoberta
seja realizada no futuro, haveria gás nacional para produzir cerca
de 90 milhões de m3/dia,
ou seja, volume equivalente a três gasodutos Bolívia-Brasil, operando
com capacidade máxima, durante 15 anos. Juntando-se às reservas brasileiras
aquelas da Bolívia, que, em 2000, totalizavam outros 520 bilhões
de metros cúbicos, pode-se dobrar o período de disponibilidade de
oferta de gás. Além disso, assumindo-se que as reservas atuais continuam
em franca expansão, com novas descobertas podendo ser vislumbradas
ao longo das próximas décadas, não será exagerado afirmar que Brasil,
Argentina e Bolívia podem sustentar um consumo de gás no Brasil de
aproximadamente 150 milhões de m3/dia por cerca de 50 anos. Há, portanto, um desafio real
de se descobrir o que fazer com todo este gás.
Porém, na verdade, pode-se argumentar
que, encontrar um papel para o gás natural no Brasil tem um apelo
estratégico muito maior. Trata-se de construir um caminho brasileiro
em direção ao "combustível do futuro", isto é, de adentrar-se na "Era
do Gás".
Vários autores têm procurado descrever
as vantagens do gás natural enquanto combustível (vide SANTOS (2002);
JARVIS (1993) ou BIER (1986)). O gás natural é mais leve do que o
ar e, em caso de vazamento, deverá subir, reduzindo-se as possibilidades
de acumulação e explosão (com vantagens em termos de segurança).
Outra característica importante do gás natural, em especial daquele
com maior concentração de metano, é a necessidade de uma energia
de ativação maior para se iniciar a queima. Isto ressalta, uma vez
mais, a segurança do gás em relação a outros combustíveis. A seguir,
descreve-se um conjunto de propriedades que tornam o gás natural
um combustível privilegiado e do futuro.
2.1. Algumas vantagens técnicas do
gás natural:
Em uma combustão, ao quebrar-se a primeira
ligação covalente, gera-se a energia que, subseqüentemente, romperá,
em cadeia, as demais ligações, gerando-se o calor que poderá ser
aproveitado. A velocidade com que este processo ocorre distingue
as condições entre uma combustão controlada ou uma explosão. Para
haver a reação de combustão, é necessária uma quantidade mínima e
máxima de combustível dissolvido no comburente. Do contrário, a combustão
não ocorrerá. Segundo SUBRAMANIAM (1989), estes limites, máximo e
mínimo, são característicos de cada combustível, variando segundo
a temperatura, pressão e energia inicial da combustão. A variação
da quantidade de combustível, dentro desses limites, estará associada
com a velocidade da reação de combustão.
Na figura 1, pode-se verificar os limites para o gás natural. O limite
mínimo de explosão é definido como sendo L.E.L (do inglês: "low
explosive limit"), enquanto o limite máximo é denominado de U.E.L.
(do inglês: "upper explosive limit"). Segundo KUO (1986),
os limites de explosão são, para todos os propósitos práticos, os
mesmos da inflamabilidade. Comparativamente com outros combustíveis,
o gás natural tem limites mais estreitos tornando-o menos reativo
e, portanto mais seguro.
Na figura 2, mostra-se que, para o gás
natural, a concentração do combustível no comburente influencia,
diretamente, a velocidade da chama. A curva da velocidade, assim
como os limites de inflamabilidade, também são uma característica
específica do combustível. Para KUO (1986), é aceitável assumir que
a mistura que proporciona a máxima temperatura da chama é também
aquela que garante a maior velocidade da chama. Assim, posto que,
segundo AMERICAN GAS ASSOCIATION (1967), o metano é o combustível
que necessita de maior energia para quebrar suas ligações, requerendo
uma temperatura de chama de, no mínimo, 785°C, para iniciar decomposição
apreciável, o gás natural apresentará velocidades de chama muito
superiores.

Figura 1: Percentagem
de excesso Figura 2: Velocidade da queima &
de ar & resultado
na combustão. porcentagem de excesso
de ar.
Fonte: SEARS
(1977)
3. DIFICULDADES
NA CRIAÇÃO DE UM MERCADO DE GÁS
As recentes descobertas de gás natural
na Bacia de Santos garantem condições ainda mais favoráveis para
o Brasil adentrar na "Era do Gás" e de suas vantagens tecnológicas.
Porém, ao mesmo tempo, multiplicam-se os desafios de se encontrar
mercados que possam tirar proveito do novo energético.
A primeira vista, pode-se pensar que
a ampla oferta de gás nacional poderá, finalmente, viabilizar o seu
uso em termoelétricas. O gás boliviano apresentava grande incompatibilidade
em relação à geração elétrica no Brasil. Um gás doméstico, teoricamente,
não será onerado pelas mesmas cláusulas contratuais que determinavam
o preço do gás em US dólar e o preço da eletricidade a ser vendida
em moeda nacional. Se o gás nacional for estabelecido em Real, terão
sido eliminados os riscos cambiais.
No entanto, ainda pode-se questionar
se o peso dos financiamentos necessários para viabilizar a produção
do gás na Bacia de Santos não terminará sendo dominante, fazendo
com que a referência ao dólar seja obrigatória. Além disso, através
de cadeias de exportação marítima, via GNL, o gás nacional também
poderá ser exportado, transformando-se, portanto, em uma commodity internacional,
com preços necessariamente atrelados ao dólar. Enfim, ainda que viável,
será que o uso termelétrico do gás da Bacia de Santos será desejável?
Uma termoelétrica aproveita, efetivamente,
no máximo 50% do potencial de energia gerado com a combustão do gás.
Significa que, ao consumir-se 20 milhões de m3/dia em termoelétricas, estar-se-á, de
fato, desperdiçando um energético nobre, já que a queima de 10 milhões
de m3/dia não será transformada
em energia final útil, que, em última instância, representa o ganho
de competitividade que um país pode obter a partir da combustão do
gás.
Alguns podem argumentar que este aspecto é irrelevante
em um cenário com super oferta de gás. Porém, justificar uma enorme
queima inútil do combustível mais nobre não parece o caminho mais
adequado para adentrar-se na "Era do Gás". Além disso, há argumentos
de ordem ambiental, pois a queima inútil de 10 milhões de m3/dia de gás não constitui a estratégia
mais coerente com os princípios do Protocolo de Kioto e as necessidades
de redução de gases de efeito estufa como o dióxido de carbono (CO2).
Qualquer queima de combustível fóssil
contribuirá para a geração de gases de efeito estufa, com efeitos
negativos no ambiente. Porém, com usos mais adequados e eficientes
do gás natural, estar-se-á extraindo o máximo proveito da queima
do gás, reduzindo-se, assim, efeitos ambientais negativos por unidade
de energia útil gerada. Além disso, conforme descreve SANTOS (2002),
não se deve entender o quadro de suprimento de gás como uma situação
de super oferta, mas de encarar o gás natural como um recurso "ambientalmente
mais sustentável e economicamente mais viável" escasso. Acelerar
sua queima desnecessária é antecipar custos sociais elevados para
adaptação da matriz energética brasileira a uma conjuntura de maiores
restrições ambientais globais.
Na verdade, a estratégia inteligente
que cabe ao Brasil é de encontrar usos mais racionais para o gás,
que permitam direcionar o crescimento industrial do país em setores
específicos. Os próximos parágrafos procuram introduzir esta reflexão.
4. POSSIBILIDADES
DE UTILIZAÇÃO DO GÁS NATURAL
Uma planta de liquefação para o Brasil
será necessária para poder ampliar a distribuição do gás natural
a regiões onde já existam malhas rodoviárias e ferroviárias, mas
não existam gasodutos construídos. Para ampliar o uso do gás natural
na sua matriz energética nacional, o Brasil necessita valer-se da
infra-estrutura existente e que permite alcançar os confins do seu
território. É necessário desenvolver todos os potenciais usos do
gás de uma única vez e isso exige uma estratégia de difusão rápida
que não será alcançada através de dutos em um país tão carente desta
infra-estrutura.
Em SANTOS (2002), já se justificava
o transporte e distribuição a granel do gás. Contudo, com as descobertas
da Bacia de Santos, talvez seja necessário rever-se à logística para
esta planta. Sugere-se o aprofundamento dos estudos sobre a viabilidade
de construção dessa planta na região da Baixada Santista, eventualmente
em São Sebastião. Um terminal de GNL na região é coerente com a
proposta de procurarem-se soluções que permitam uma visão integrada
entre o gás de Santos e aquele da Bolívia.
A partir desse terminal de GNL, que
seria inicialmente alimentado exclusivamente com gás boliviano, sendo,
gradualmente, ampliado para também absorver quantidades crescente
de gás doméstico, pode-se, rapidamente levar gás da região Sudeste
para o Nordeste, contribuindo para ampliar o desenvolvimento dos
mercados de gás. Esta solução não exige grandes alterações contratuais
junto aos produtores bolivianos e congrega, definitivamente, os interesses
das duas nações. De fato, este é um princípio que deveria nortear
qualquer estratégia que se estabeleça para o gás no Brasil, na Bolívia
ou na Argentina. O trabalho conjunto permitirá grandes economias
de escala e um maior poder de fogo para afrontar grandes projetos
regionais e globais.
Uma vez adotada uma visão mais criativa
para a logística de transporte e distribuição do gás, pode-se, então,
confrontar o desafio maior de desenvolverem-se usos mais racionais
para o gás no Brasil. Neste sentido, é fundamental que se encare
a principal vocação do gás como sendo aquela de substituir a eletrotermia,
principalmente em processos industriais.
A energia elétrica também é nobre. É uma
forma de energia que pode ser transformada em qualquer outra com
perdas mínimas. Porém, é um desperdício usa-la para aquecimento. É um
desperdício porque a energia na forma de calor pode ser obtida com
a queima direta de gases combustíveis. A transformação da energia
físico-química do gás em calor não tem a mesma eficiência que a transformação
da energia elétrica em calor, mas é maior que os 50% da transformação
da mesma energia físico-química do gás em energia elétrica.
Na queima direta do gás, pode-se chegar
a eficiências de 60, 70, 80 e até 90%, dependendo do tipo de sofisticação
de projeto e dos equipamentos utilizados nessa transformação. Para
ter-se uma idéia, se as companhias de distribuição de eletricidade
tivessem sido realmente responsáveis (e adequadamente penalizadas)
pela escassez de eletricidade aos seus consumidores em 2001, tais
empresas teriam, provavelmente, doado um aquecedor de água a gás
para todas residências ou comércio que possuíssem aquecedor de água
elétrico. Tal estratégia foi verificada na Califórnia quando o colapso
elétrico era iminente.
Outro ponto importante a ser considerado é que,
no Brasil, por muito tempo, o planejamento energético conduziu sistematicamente
a situações de abundância de eletricidade, com as grandes construções
de hidrelétricas. Essas usinas, uma vez construídas, necessitavam
gerar receitas para serem amortizadas. Para tanto, valeu-se de estratégias
de fomento ao uso da energia elétrica, inclusive para aquecimento
(residencial, comercial ou industrial). Estima-se que 40%
da energia elétrica consumida no Brasil é utilizada em eletrotermia
(SANTOS, 2002).
Esta situação perdurou por muito tempo,
pois se desenvolveu praticamente na mesma época das crises do petróleo,
ou seja, era mais barato usar a energia elétrica para aquecimento
do que outra forma de combustível, como o gás natural. Estando presente
na realidade energética brasileira durante tantos anos, criou-se
uma sociedade industrial com esse conceito arraigado. Por exemplo,
ainda são restritos os esforços de pesquisa sobre as inúmeras possibilidades
para substituir-se a energia elétrica por gases combustíveis nos
processos industriais.
Essa realidade é insustentável e pode
modificar-se rapidamente. Tal premência tornar-se-á ainda mais evidente
quando o Brasil começar a desenvolver as reservas de gás recém descobertas.
Não é possível uma nação, com recursos econômicos
escassos, endividar-se no exterior, em moeda forte, para promover
investimentos elevados em produção de gás, e, em seguida, incitar
usos tão ineficientes desse gás como na geração de eletricidade que
será utilizada em processos eletrotérmicos.
A substituição da eletrotermia é uma
forma de uso racional do gás natural. Porém, não é a única. Outra
solução desejável é a co-geração, ou seja, em processos onde ocorre a produção
simultânea de calor e trabalho (que pode conduzir à geração de eletricidade).
Na co-geração, a perda dos 50% da energia do gás é minimizada com
a geração de calor e/ou frio e/ou dióxido de carbono. Exemplo claro
de processo de co-geração é aquele utilizado pela fábrica da Coca-Cola
em Jundiaí, que utiliza todas as variações para produzir um conjunto
sofisticado de utilidades. Vários segmentos da indústria e do comércio
poderão viabilizar um projeto de co-geração. Tais iniciativas são
complexas, exigindo ampla cooperação entre os agentes envolvidos
e sistemas de parceria que permitam a distribuição de ganhos e riscos.
Projetos de micro co-geração podem ser
desenvolvidos em hospitais, shopping centers, hotéis ou condomínios
residenciais. Porém, o conceito da co-geração deve ser ampliado para
as escalas maiores dos projetos industriais. É impossível que a indústria
continue paralisada e na esperança de continuar convivendo com tarifas
de eletricidade módicas, mas irreais, pois são incapazes de garantir
a expansão incontrolável da oferta de energia elétrica (nem com hidrelétricas
e muito menos com termoelétricas).
Na Europa e Canadá, já está consolidado
o conceito através do qual o calor e o frio são comercializados e
distribuídos (tendo a água e/ou vapor como meio de condução), da
mesma forma que se distribui água, gás ou energia elétrica. É fato
que tais regiões necessitam muito calor para calefação, contribuindo
para viabilizar projetos de co-geração. Contudo, a produção de calor
e frio é igualmente interessante. Podem-se estudar estratégias de
posicionar as usinas de co-geração próximas de agrupamentos industriais
ou conjuntos de edifícios que demandem ar condicionado. Com a produção
do dióxido de carbono, pode-se comprimi-lo e transportá-lo por navios,
o Brasil tornando-se um exportador deste produto.
O uso do gás natural enquanto matéria prima
de processos industriais ao invés de combustível permite adicionar
valor ao gás e reduzir suas barreiras intrínsecas de distribuição
e transporte. A liquefação do metano em GNL já é um desses processos.
A liquefação do gás natural pode facilitar o seu uso em veículos
pesados, reduzindo os custos de compressão. O gás natural veicular
(GNV) é vendido na forma comprimida (GNC), sendo apropriado na substituição
da gasolina e álcool em veículos leves. No entanto, a grande contribuição
do gás natural no transporte seria através da substituição do diesel.
Com a disseminação do GNL, é possível intensificar o uso em caminhões, ônibus
e trens. O GNL é mais adequado para contornar o principal problema
de perda de espaço útil dos porta-malas e do excesso de peso com
cilindros de gás comprimido. Além disso, a logística de distribuição
de GNL assemelha-se aquela do diesel, não necessitando uma expansão
conjunta das malhas de gasodutos.
Antes da liquefação do metano, é necessário
extrair do gás bruto, que sai dos campos produtores, os componentes
mais pesados tais como o etano, butano, propano e pentano (ou moléculas
maiores). O etano é utilizado na produção de eteno, amplamente utilizado
na indústria química para a produção dos diversos tipos de plásticos.
O Brasil tem uma tradição petroquímica, com apenas um único complexo
gás-químico em construção no Rio de Janeiro. Porém, com a descoberta
de gás em Santos, o estado de São Paulo também deveria apostar na
estratégia de se transformar em um centro gás-químico, produzindo
e exportando produtos das cadeias do plástico a partir do gás. Além
de tornar sua indústria química mais competitiva, pois, em projetos
de grande escala, o custo de produção do eteno, a partir do gás natural, tende a cair, estabelecer-se-á a
estratégia mais adequada de valorização do gás de Santos. No entanto,
essa é uma decisão que exige revisão de conceitos. Todos os planos
de ampliação da indústria petroquímica paulista através da nafta
deveria ser re-analisados e substituídos pela gás-química.
O pentano e outras moléculas mais pesadas
são classificados como gasolina natural. Apesar de não apresentarem
um desempenho adequado se utilizados diretamente nos automóveis,
podem ser facilmente misturados nos pools de gasolinas das
quatro refinarias paulistas, garantindo o aumento de suprimento para
consumo interno ou mesmo para exportação. Da mesma forma, o butano
e propano promoverão um aumento da produção de gás liquefeito de
petróleo (GLP), para o qual existe uma ampla demanda no país, devendo
crescer na medida em que se consolidam os mercados dos gases combustíveis
como um todo.
Além da liquefação do gás, existem processos
de síntese de produtos líquidos a partir do gás. A produção de metanol é a
mais conhecida. O metanol, em tempos de escassez do álcool de cana
de açúcar, foi importado, tendo sido misturado ao álcool e distribuído
nos postos de combustíveis.
Outros processos de síntese a partir
do gás natural são genericamente denominados de GTL (do inglês Gas-to-liquids).
São obtidos produtos similares àqueles retirados da destilação fracionada
do petróleo, ou seja, o GLP, a gasolina, o querosene a nafta ou o
diesel. A grande vantagem das plantas de GTL em relação a uma refinaria é que
permitem ampliar o mercado para o gás natural em dois sentidos. Em
primeiro lugar, ao sintetizar-se em produtos líquidos, o gás pode
usufruir-se de todo o sistema de transporte e distribuição de líquidos
já existente no país. Reduz-se, portanto, os grandes obstáculos de
logística que emperram o avanço do gás em um país sem adequada infra-estrutura
específica para produtos gasosos.
Por outro lado, as plantas de GTL, diferentemente
da refinaria, não geram como subproduto obrigatório os óleos combustíveis
residuais, que têm seus preços depreciados e criam barreiras comerciais
para a penetração do gás. E ainda, o produtos líquidos produzidos não contém enxofre, fato extremamente
importante no mercado da cidade de São Paulo. Portanto, com o objetivo
de se valorizar o gás de Santos e permitir o seu rápido desenvolvimento
e comercialização, o Brasil, pelo menos no que se trata da região
Sudeste deveria abandonar qualquer iniciativa de construção de nova
refinaria. Antes de uma nova refinaria, uma planta de GTL, que poderia
estar localizada em São José dos Campos, no próprio complexo da refinaria
local, conduziria a uma estratégia muito mais coerente, pois, em última
instância, o Brasil estaria preparando-se para substituir petróleo,
que pode ser exportado, pelo gás natural, cuja exportação é mais
complexa e menos desejada, dado que se trata do combustível do futuro.
O custo de uma planta de GTL pode não
ser viável em pequenas unidades. No entanto, no seio do maior mercado
consumidor de produtos líquidos do país, pode-se vislumbrar uma unidade
de produção de larga escala, tornando-a economicamente mais viável.
O Brasil tem reduzido substancialmente sua importação de petróleo
bruto, devendo tornar-se auto-suficiente em alguns anos. Entretanto,
a demanda por diesel é, ainda, o grande gargalo da nação, com importações
crescentes (analogamente ao que se observa para o GLP).
Com a expansão do uso do gás natural,
incluindo GNL veicular, ocupar-se-á parte dos mercados do GLP e do
diesel. Por outro lado, com a síntese desses combustíveis a partir
do gás natural, pode-se, definitivamente, sugerir um cenário no qual
o Brasil tornar-se-á também auto-suficiente em diesel e GLP.
5. CONCLUSÕES
A utilização do gás natural em termoelétricas é uma
estratégia pobre e simplista, sendo que, no Brasil, é também economicamente
pouco viável, pois jamais o gás encontrará ampla sustentabilidade
para competir com a energia elétrica gerada em hidrelétricas, nas
quais o custo do combustível é desprezível.
O uso do gás deve almejar propósitos mais
amplos, com maior valor agregado, incorporando
tecnologias modernas, e que também permitirão incrementos
de competitividade em outros segmentos da indústria, ganhando em
produtividade e capacidade de exportação, cujos benefícios mais que
compensarão os custos adicionais com as estratégias de uso de gás
mais caras. Nesse texto, procurou-se explorar algumas dessas estratégias,
permitindo-se, no mínimo, sugerir temas que merecem uma análise mais
aprofundada.
O Brasil necessita monetizar suas reservas
de gás natural, incluindo aquelas recentemente descobertas na Bacia
de Santos. Esse processo não pode ser conquistado em detrimento da
grande vantagem competitiva que o país dispõe a partir de sua integração
gasífera com países vizinhos como Argentina e Bolívia. Na verdade,
deve-se procurar desenvolver projetos articulados, combinando diferentes
zonas de suprimento de gás e expandindo a base de reservas, garantindo
ofertas que se estenderão ao longo de grandes períodos, 30 a 50 anos.
Tais projetos exigem soluções inteligentes
que promovam o consumo brasileiro de gás natural e foquem no melhor
uso desse recurso, garantindo ganhos econômicos para as gerações
presentes e futuras. Para tanto, o gás não pode ser encarado em sua
mera dimensão energética. Trata-se, na verdade, de conceber uma nova
estratégia de desenvolvimento econômico da nação e de seus países
vizinhos, rumo ao que se pode denominar a "Civilização do Gás".
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